De regresso a um restaurante

O hábito de se ir ao restaurante fazer uma refeição festiva ou domingueira, o chamado almoçar ou jantar “fora”, é um hábito recente em Portugal, que se implantou nos finais do séc. XIX e ao longo do séc. XX.

Até ao século XVIII a comensalidade fazia-se no domínio privado, havendo apenas espaços como a taberna e as casas de pasto onde a gente do povo fazia pequenas refeições e bebia vinho. Nas hospedarias ou estalagens, localizadas ao longo das estradas, dava-se, para além do agasalho, também sustento aos viajantes.

Mas é por esta altura que algumas mudanças se vão verificar. Num tempo em que as cidades se expandem e rompem com as velhas muralhas medievais, nasce nas gentes urbanas um gosto por um certo regresso ao naturalismo e à vida campestre pastoril, que se manifesta na realização de piqueniques. Foi em França que este gosto se implantou e daqui se expandiu para o resto da europa. A própria palavra, de origem francesa, deriva da junção de “piquer” (pegar pequenas coisas) e “nique” (coisa pequena) significando aquela refeição convivial feita ao ar livre, em pleno campo ou parques públicos, em que se vão comendo pequenos pedaços de comida. No século XIX com a chegada do romantismo o piquenique institucionaliza-se e ganha força na pintura e na literatura. Entre nós é famoso o poema de Cesário Verde, “de tarde” onde se alude a um piquenique de burguesas, feito numa tarde de Primavera em pleno campo, perto de um granzoal  com papoulas floridas, e onde se comeu melão, damascos e pão-de-ló  molhado em vinho malvasia.

Naquele piquenique de burguesas

Houve uma coisa simplesmente bela…

Ao mesmo tempo, no interior das cidades surgem os botequins ou “cafés”, espaços comerciais dedicados à divulgação desta bebida e associados ao movimento cultural denominado iluminismo. Passaram a ser espaços de discussão e proliferação de novas ideias como a liberdade e a democracia. Em contraste com as tabernas, os “cafés” eram casas sóbrias e tranquilas, propícias à conversa e à leitura.

Paralelamente à difusão dos cafés surgem os restaurantes, palavra mais uma vez de origem francesa que significa “comida restauradora” ou que nos restabelece e nos dá novas forças.  Tudo começou com um homem chamado Boulanger que, em 1765, abriu um estabelecimento em Paris, próximo do Louvre, e nele começou a vender “caldos restaurantes”, ou seja, suculentos caldos à base de carnes para restaurar forças. O consumo destes caldos era habitual por toda a europa para tratamento de inúmeras doenças. Em Portugal chamavam-se “caldos esforçados” e eram feitos à base de aves de capoeira, carne de carneiro, especiarias, raízes, cebolas, leguminosas e, às vezes, âmbar, ouro e almíscar.

O sucesso deste primeiro restaurante foi enorme e o termo impôs-se, surgindo, ao mesmo tempo, o conceito de “comer fora” do domínio privado, promovendo a convivialidade à mesa em espaço público.

Hoje todos vamos ao restaurante para uma refeição mais alargada em família, com amigos ou colegas de trabalho ou, simplesmente, quando não nos apetece cozinhar!  E, com frequência, procuramos comer aquela especialidade da terra, que normalmente não cozinhamos em casa, mas que nos restabelece o corpo e a alma e a que os ingleses chamam “confort food”. Por isso, podemos dizer que o restaurante, apesar de já não vender “caldos restaurantes”, continua ainda hoje a manter o espírito de Boulanger que, na época, escreveu, na fachada do seu estabelecimento, esta frase evangélica de São Mateus (11, 28) “Venite ad me omnes qui stomacho laboratis et ego vos restaurabo”.

E agora em que, finalmente, podemos ir a um restaurante, importa restaurar o corpo, e em especial a alma, num qualquer convívio fraterno, em espaço público, degustando as maravilhas que por aí se oferecem. Restaurem-se bem!

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