Uma viagem sustentável pelo Alto Minho: através das suas águas

O Alto Minho é muito mais que apenas as montanhas e as paisagens, as tradições e a gastronomia. Muita da beleza da região deve-se à água por que é banhada: o Oceano Atlântico, o Rio Minho e o Rio Lima. Fizemos uma viagem pela região através das suas águas e descobrimos o território sustentável com paisagens únicas.

Há muitos anos, estas águas eram usadas principalmente para o comércio, legal ou contrabando, e como meio de transporte entre localidades. Hoje, com a evolução dos transportes e das vias de circulação, a sua principal função é a de proporcionar experiências de lazer, desde Viana do Castelo a Ponte da Barca e de Caminha a Melgaço.

Mas comecemos pelo início. Estamos em Viana do Castelo e, olhando mesmo à nossa frente, vemos o Oceano Atlântico. São milhões e milhões de anos que se escondem por entre as ondas e correntes, porque o mar que vemos agora, mesmo aqui ao nosso lado, já esteve a vários quilómetros de distância, há milhares de anos.

O Alto Minho está repleto de praias, umas rochosas, outras de areias brancas, e pedrinhas que as ondas vão arrastando consigo. Ainda o dia mal começou e os surfistas já se preparam para entrar na água gelada da Praia do Cabedelo.

As praias do Alto Minho são muito procuradas pelos praticantes de surf devido às suas ondas grandes e irrequietas trazidas pelos ventos fortes – a Nortada. Mas não é apenas no mar que encontramos desportistas. Na areia, junto da rebentação, há quem aproveite para correr ou passear com o sol quente de inverno a latejar na pele.

Para os amantes de corridas, caminhadas ou passeios de bicicleta, a atividade não para na Praia do Cabedelo. Aliás, fica o desafio de percorrerem Viana do Castelo a Caminha de bicicleta ou a pé, na Ecovia do Litoral Norte, sempre com o Oceano Atlântico como companhia.

Foi isso que fizemos: percorremos a ecovia até à praia do Carreço. Aqui, encontramos o Monumento Natural do Alcantilado de Montedor, um dos 13 geossítios que integram o Geoparque Litoral de Viana do Castelo. Este geoparque permite-nos conhecer um pouco os 320km2 do território do distrito, com mais de 500 milhões de anos de história. O Monumento Natural do Alcantilado de Montedor, classificado como Monumento Natural Local em 2016, é uma das principais atrações para quem percorre a costa do Alto Minho.

Saímos da ecovia e subimos o passadiço para visitar os moinhos abandonados de Montedor, com uma vista maravilhosa sobre a praia rochosa e o pinhal. Ao longe ouve-se um relinchar. “Os cavalos estão à nossa espera”, avisam-nos. Na praia do Carreço pudemos andar a cavalo no areal, junto ao rebentar das ondas, durante o pôr-do-sol que caía sobre a água.

Apenas nos desviamos da nossa rota para dormir na Portugal Active Ocean Lounge, em Âncora. Mas, a vontade de retomar a aventura é tanta, que entramos dentro de água no rio junto à casa e fazemos paddle até voltarmos ao mar, em Vila Praia de Âncora. E aí, seguimos caminho de bicicleta novamente pela Ecovia do Litoral Norte, em direção a Caminha, o nosso destino.

No percurso é possível encontrar paisagens encantadoras com capelas junto ao mar e ovelhas e cabras que pastam calmamente ao pé da água. A chegada a Caminha faz-se através do pinhal de Moledo. O percurso debaixo do arvoredo é mágico e parece que nos esquecemos de onde estamos. Só voltamos à realidade quando, lá ao fundo, avistamos a foz do Rio Minho e sabemos que a viagem chegou ao fim.

Era uma vez... uma fronteira natural que une duas regiões e dois países

Visto de fora, o Rio Minho é a fronteira natural que delimita o Norte de Portugal com Espanha. Mas a verdade é que tanto espanhóis como portugueses se esquecem deste pormenor e fazem parte da sua vida no país vizinho. É uma ligação cada vez mais natural e bastante importante para os dois territórios, principalmente para quem vive junto ao Rio Minho. Se subirmos até ao ponto mais a Norte de Portugal, mesmo antes de encontrarmos a Galiza, deparamo-nos com o Rio Minho. Este grandioso curso de água separa o nosso país da vizinha Espanha durante mais de 100 quilómetros e é também um dos mais procurados por quem deseja encontrar alguma aventura e diversão dentro e fora de água.

É na sub-região de Monção e Melgaço que se cultiva e produz um dos vinhos mais conceituados do país: o vinho verde alvarinho. Os terrenos montanhosos de Melgaço, preenchidos por vinhas carregadas de uvas, servem de paisagem para uma prova de vinhos na quinta do Soalheiro. Lá ao fundo estão as vinhas, prontas para o rebentar das folhas e das uvas, que servem de rota para quem quer descobrir os vinhedos do Alto Minho de bicicleta.

Para lá do horizonte, vemos o Rio Minho. A rapidez com que as águas querem chegar ao mar é muito procurada pelos amantes de desportos radicais, como o salto pendular. Na fronteira, com Portugal de um lado e Espanha do outro, a adrenalina corre nas veias de quem se vai atirar de uma ponte, preso apenas por uma corda, ou quem prefere entrar num barco com os amigos e descer o Rio Minho em direção ao Oceano Atlântico.

Sabemos que chegamos a Monção quando avistamos a Fortaleza, erguida em 1306 por D. Dinis que, estando em guerra com Castela, mandou construir um castelo e uma cerca amuralhada em redor da vila. Mais tarde, durante as Guerras da Restauração, a cerca medieval e o castelo deram lugar à fortificação que vemos hoje.

Foi a pensar na população local, em turistas ou apenas nos curiosos, que a região do Alto Minho investiu na ecovia que liga uma extensão de 46 quilómetros junto ao Rio Minho, desde Monção a Caminha. Em 2018, este trilho ganhou o prémio GreenWays, recebendo o título de terceira melhor via verde da Europa. Atualmente, é muito procurada por quem quer visitar as fortificações de Monção e Valença.

Cerca de 400 anos mais tarde da construção da Fortaleza de Monção, durante as investidas de D. Sancho I sobre Pontevedra e Tui, o rei mandou construir a Fortaleza de Valença. Com uma posição estratégica entre o rio Minho e a estrada romana, era o local ideal para vigiar os ataques dos vizinhos galegos e planear a conquista das cidades espanholas.

As fortificações nas fronteiras relembram a história da época das conquistas e invasões. Mas a fronteira que temos agora apenas se abriu há poucos anos. Aqui, assim como noutras terras da região, quase toda a gente tem memórias dos tempos do contrabando e das travessias ilegais, memórias que agora parecem cada vez mais distantes.

A 29 de setembro de 1918, o governo espanhol mandou fechar a fronteira com Portugal e proibiu a travessia de embarcações entre os dois países, por causa da pandemia da gripe pneumónica de 1918 e 1919. O contrabando entre Portugal e a Galiza começou nesta altura, mas teve maior incidência durante a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial em que não só se fazia a travessia de produtos, como também de pessoas, os refugiados.

O contrabando começou por causa de coisas que em Portugal não havia, mas que na Espanha se encontravam com fartura. Através do contrabando a população portuguesa viu a possibilidade de fazer face às suas dificuldades diárias, já que o trabalho agrícola era escasso e mal pago. O contrabando torna-se num complemento necessário ao rendimento familiar.

Hoje em dia, a fronteira separa dois países, mas não separa as pessoas que neles vivem. As duas margens do Rio Minho complementam-se e necessitam uma da outra.  Neste sentido foram criadas 7 Eurocidades: Cerveira-Tomiño, Tui-Valença, Salvaterra-Monção, Chaves-Verin, Elvas-Badajoz, Ciudad Rodrigo-Fuentes de Oñoro-Almeida-Vilar Formoso e do Guadiana (Vila Real Sto. Antonio-Castro Marim-Ayamonte). Estas Eurocidades surgem com o propósito de haver maior cooperação e desenvolvimento económico e social, maior partilha de infraestruturas, serviços, cultura, entre outros.

A fazer a ligação entre Vila Nova de Cerveira e Tomiño está a Ponte da Amizade e à qual se juntará uma ponte pedonal que pretende aproximar ainda mais a população das duas margens.

O nascer do dia convida a fazer paddle no Rio Minho, numa água tão calma e serena que espelha o céu. Ao nosso lado estão a Ilha da Boega e a Ilha dos Amores, mais conhecidas pelas Morraceiras, propriedades privadas que outrora chegaram a ser inundadas pela subida das águas do rio. Vistas de fora, são uma mistura de natureza e mistério. Nas margens, quase ou nada conseguimos espreitar lá para dentro, mas sabemos que servem de habitat a algumas espécies, desde os peixes do rio, as aves que procuram alimento e também as lontras que se passeiam ao sabor da corrente. Caso não tenhamos a sorte de nos cruzar com uma, rio abaixo e rio acima, podemos sempre fazer uma visita ao Aquamuseu, localizado na margem portuguesa do rio, em Vila Nova de Cerveira.

Mas quem visita esta vila não fica apenas pelas atividades no Rio Minho. Uma das grandes atrações são os trilhos de montanha em jipe todo o terreno com a empresa OláVida. O guia, o Sr. Agostinho, começa por avisar para nos segurarmos bem porque será um trajeto atribulado. E com uma mão bem agarrada ao jipe e a outra firme na porta, começamos mais uma aventura, desta vez fora de água.

A primeira paragem faz-se no Miradouro da Senhora da Encarnação, junto do parque das merendas. O Sr. Agostinho avisa-nos que a vista ainda vai melhorar ao longo do trilho. De seguida paramos junto do Posto de Vigia do Alto da Pena, a cerca de 600 metros de altitude. Este é um dos pontos mais altos da região e é possível ver todo o Alto Minho à nossa volta como se fosse um retrato.

Está na altura de começar a descer para os miradouros de menor altitude. A primeira paragem é no Miradouro do Cervo, onde foi colocado um baloiço que atrai muitos turistas, e depois, já com o pôr-do-sol como fundo, vamos até ao Miradouro do Espírito Santo, mais conhecido como ‘Porta do Céu’. Daqui tudo se vê: os barcos que saem para navegar o Rio Minho, o aquamuseu, os ciclistas e corredores que respiram o ar puro do Alto Minho.

Os barcos e a correria de antigamente dão lugar aos desportos náuticos e ao lazer

Nasce aqui ao nosso lado, em Espanha, atravessa o Alto Minho e vai desaguar ao Oceano Atlântico, em Viana do Castelo. O Rio Lima ganha vida no monte Talarinho e desce parte da Galiza até chegar a Portugal. E depois são 67km em território nacional, de paisagens de cortar a respiração, desde Lindoso até Viana do Castelo. O rio de hoje parece calmo, sem grande agitação, apesar de, de vez em quando, aparecer uma prancha ou uma canoa que desliza sem esforço. Mas recuamos 60 anos no tempo e os rios eram as autoestradas que ligavam aldeias e vilas. Toda a Europa Ocidental dependia dos barcos e barquinhos, melhores ou mais velhinhos, que lutavam contra as correntes agitadas e ventos fortes para chegar ao seu destino. Em tempos, o Rio Lima estabelecia uma ligação importante entre as várias regiões por onde passava. Hoje, o rio é invadido pelas novas práticas aquáticas, como o paddle, canyoning, pesca à pluma, a canoagem ou os barcos à vela. A nossa viagem – percorrer o Rio Lima desde que entra em Portugal até desaguar no Oceano Atlântico – começa em Ponte da Barca, no Parque Nacional Peneda Gerês.

As pontes antigas, que já viram tantas gerações passar por elas, são banhadas pelas águas transparentes do Rio Lima, muito procuradas para fazer paddle. As pequenas pranchas e remos debatem-se contra a corrente do rio, que teima em não dar tréguas.

Deixamos a prancha de lado e o resto do percurso é feito de bicicleta, desde o Soajo à Ecovia do Vez, sempre com o rio como guia, mesmo ali ao nosso lado. As paisagens são maravilhosas e no ar apenas se ouvem os pássaros.

Ao contrário do que acontece na zona do Parque banhada pelo Rio Cávado, em que o rio é constantemente atravessado por embarcações e motas de água, no Rio Lima isso não acontece, uma vez que tem, em certas zonas, pouco mais de metro e meio de profundidade.

Entre a ponte medieval, erguida em granito, a nordeste, e a ponte contemporânea, para carros e camiões, a sudoeste, as águas do rio, serenas, banham a vila de Ponte de Lima. Há algumas décadas, às segundas-feiras, esta vila era uma paragem obrigatória para ir à feira. O Rio Lima enchia-se de Água Arriba, um barco com 15 metros de comprimento, cinco de largura e uma vela, que transportava vendedores e fregueses, rio acima e rio abaixo.

Hoje, deixamo-nos embalar pela brisa leve que empurra o Água Arriba, ajudado pela corrente e claro, pelo motor. A proposta para a construção deste Água Arriba veio da Câmara Municipal e durante 3 meses, o ‘mestre’ Caninhas e o carpinteiro Amélio trabalharam lado a lado na sua construção. “Um barco destes tem o valor de 10 ou 15 mil euros e custou zero, foi feito por gosto e por amor à camisola”, afirmou Caninhas ao Sapo24.

As pequenas canoas vão-nos fazendo companhia. Vemo-las subir e descer o rio, deslizando suavemente ao pôr do sol.

Mas a nossa viagem só termina quando chegamos à foz, a Viana do Castelo. Entretanto, trocamos o Água Arriba, inspirado nos barcos de antigamente, pelo barco à vela, usado nas competições nacionais ou internacionais. A diferença é enorme. A única coisa que têm em comum é a vela.

Este barco é muito mais pequeno, mais estreito, é composto por várias velas e é movido apenas pela força do vento. Aqui ninguém se senta descansado a desfrutar da viagem porque o barco está sempre a virar de um lado para o outro e a atenção é fulcral para nos mantermos fora de água. O guia vai explicando que, dependendo de onde vem o vento, o barco tem de fazer mais ou menos manobras para conseguir navegar o rio.

A viagem só fica terminada quando passamos a foz, junto dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e do Clube de Vela, e entramos no Oceano Atlântico. Agora, vemos ao fundo os surfistas e as ondas que se desfazem na areia. Navegamos ao largo da Praia do Cabedelo, lugar onde começou toda esta aventura no Alto Minho.

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