Pelo Lima acima

Existe um velho ditado popular que diz que “as Fidalgas de Ponte da Barca pedem às Senhoras de Ponte de Lima que ordenem as Peixeiras de Viana a mandarem o peixe para cima”.

O rio Lima está no coração do Alto Minho e foi, ao longo de séculos, a auto-estrada para transporte de gentes e mercadorias, entre Viana do Castelo e Ponte da Barca. Quem se perder a estudar e analisar estas regiões encontra sempre o Lima como veículo condutor. Mas neste ditado, para além do Lima, aqui apenas subentendido, percebe-se também uma hierarquia social que se foi instalando desde os inícios da nacionalidade. Se em Viana predominavam as peixeiras, em Ponte de Lima e Ponte da Barca abundavam as casas senhoriais, que, pelo que me parece, rivalizavam na hierarquia. Mas não é por aí que eu quero ir, porque o que constato é que casavam todos uns com os outros e, alguns deles, procuravam, também, ter casa nobre em Viana, que era, naturalmente, a cidade mais importante e mais comercial. E, afinal, a diferença entre Senhora e Fidalga não as coloca em patamares socias muito distantes.

Mas vamos ao Lima e à troca de mercadorias que o rio impulsionava. Durante os séculos XVIII e XIX, alguns nobres residentes em Viana do Castelo tinham as suas Quintas pelo Lima acima. Aqui passavam algumas temporadas, aqui residiam alguns familiares e aqui tinham os seus feitores para lhes administrarem os terrenos agrícolas. Com todos iam trocando correspondência e enviando mercadorias. O rio Lima era a estrada mais segura e mais rápida, garantindo, por isso, a chegada dos alimentos em bom estado de conservação. Relembro aqui apenas uma nota de um feitor que, nos inícios do século XVIII, agradece a sardinha que o seu Senhor lhe tinha enviado, de Viana para Ponte de Lima, acrescentando, no entanto, que tinha chegado moída por causa dos “balanços do macho”. O barco era de facto o melhor transporte! Andava para cima e para baixo e levava tudo, desde lenha a sardinha. As Senhoras Donas, davam-se ao luxo de enviarem alguns produtos mais delicados numa cesta de vimes, que, às vezes, chamavam canastra e outras vezes “condessa” ou “condessinha”, se fosse mais pequena.

De Viana vão os alimentos que escasseiam no interior, como o peixe, com destaque para a sardinha, a pescada fresca e o bacalhau, mas também a manteiga, o tabaco, o chocolate, o café, o açúcar e as padas, o pão tradicional daquela cidade. Das vilas do interior seguem carradas de lenha, pipos de vinho, as frutas frescas da Quinta, os cereais, os frangos e os capões, os ovos, os chouriços, os presuntos e a carne de porco que, entretanto, ficou guardada nas salgadeiras da Quinta. Nos meses de Março seguiam as lampreias, acomodadas em barris de água para chegarem ainda vivas. Às vezes, depois da chegada do comboio, seguiam de Viana para Lisboa onde serviam de regalo aos familiares que por lá viviam. Mas também se enviavam alguns docinhos, quando alguma das Senhoras resolvia passar temporadas na região, ocupando o tempo, e as criadas, a fazer biscoitos, pudins e outros doces, que, depois, guardavam em latas e enviavam na “condessa” para Viana, onde vivia a “mamã” ou o “papá”.

Pelo Lima acima ía o novo mundo, o alimento que escasseava e que de outra forma demorava a chegar. Mas também ía o que o Minho tinha de melhor e que hoje continua a fazer as delícias a quem se aventura a subi-lo, de carro naturalmente…

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