Vai um copo de… vinho verde?


Estamos a terminar o tempo das vindimas! Tenho ainda na memória o cheiro a mosto e a vinho novo, que manava dos lagares quando percorria as ruas da minha aldeia. Lembro-me também do apanhar dos bagos, tarefa que sobrava sempre para as crianças e que vinha acompanhada daquela velha história – uma vez um homem fez uma pipa de vinho só com bagos… – e nós, os mais pequenos, lá tínhamos que curvar as costas.

A azáfama dos tempos passados, hoje, é mais suave. No Minho as vinhas são mais baixas e já escasseiam as uveiras; os tractores substituíram os carros de bois e os cestos são agora de plástico e muito mais leves. Também já são poucos os que fazem o vinho no seu próprio lagar, preferindo a entrega das uvas na cooperativa. E será que ainda se apanham os bagos que caem ao chão?

Mas, tal como no passado, o vinho continua a estar na mesa (dos homens e de Deus) servindo de regalo e prazer nos bons e maus momentos da vida! E porque estamos no Minho, falemos, obviamente, de vinho verde. Esse vinho ácido, que fazia esticar a boca até às orelhas e que, nos tempos antigos, era rejeitado à mesa das elites. É claro que os amantes desta região vinícola negam tudo isto. Defendem até que foi o vinho com que D. Afonso Henriques comemorou a vitória na batalha de S. Mamede, em 1128. Apelidam-no de vinho leve, fresco, frutado e fácil de beber. Mas não é. Ou melhor, não foi ao longo de séculos. Dizia-nos Duarte Nunes de Leão, nos finais do século XVI, que apenas era alimento de gente plebeia, preferindo os nobres os vinhos de Lamego e de Monção. No século XVIII, o médico Francisco da Fonseca Henriques deixava claro que era austero, acerbo, frio, pouco nutritivo e nada saudável. Em oposição considerava o vinho maduro de sabor doce, quente, odorífico e, naturalmente, recomendado para quando se estava doente. Sim, porque o vinho é, desde os tempos bíblicos, um alimento medicamento. Já o encontramos referido enquanto tal, por exemplo, nas cartas de São Paulo a Timóteo.

Por esta razão os monges beneditinos, com vários mosteiros a Norte do país, estavam proibidos de beber vinho verde, apesar de o produzirem em grande quantidade nas suas quintas e de, ao longo de séculos, tentarem melhorar a qualidade do mesmo, seleccionando castas e escolhendo os melhores terrenos. Mas a imposição era clara: o vinho servido no refeitório monástico devia ser maduro e sem mistura de vinho verde. O mesmo se passava nas casas nobres minhotas, onde, de igual modo, se procurava aprimorar um bom vinho verde para a mesa dos senhores. É que o vinho maduro, de “acima do Douro”, demorava a chegar e com um preço nem sempre acessível.
Os criados, esses, bebiam um vinho de mais fraca qualidade, de um tinto forte e ácido que se foi divulgando e popularizando entre o povo.
Este selo de desclassificação enóloga do vinho verde, especialmente do tinto, deixou marcas profundas e, ainda hoje, muitos enólogos não o consideram como tal. Mas as gentes do Minho têm sabido defender e melhorar o seu néctar. Foram
pioneiros a demarcar a região vinícola (1908) e continuam na senda, de monges e senhores nobres, a procurar o melhor vinho verde para servir à mesa. E aí está ele. Um vinho único no mundo, com personalidade própria, que, por este facto e pela qualidade que tem alcançado, se tornou o segundo vinho português mais exportado, depois do vinho do Porto. E venha a malga de “binho berde” para a vindima! O pessoal já reclama a sua presença!

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