Vamos à praça?

Gosto de mercados, ou de Praças como lhes chamamos em linguagem corrente! São sítios onde paira o bulício, a diversidade dos produtos fora das normas comerciais, sem regras e ao sabor das estações, onde se pode “marralhar” o preço, onde se encontram as mais genuínas vendedeiras: as mulheres do campo, que vêm vender o que produzem ao longo da semana nos seus quintais e leiras, as padeiras, que vêm para à praça com o mesmo espírito com que vendem numa romaria, e as peixeiras, sempre acolhedoras e a chamaram-nos de Amor, Menina, Querida e outros piropos que nos enternecem e obrigam a olhar. E se damos conversa saímos com o peixe que elas querem vender e com um sorriso ou uma gargalhada fresca. Peixe ainda vivo, dizem elas, depois de disfarçadamente lhe darem uma volta que o faz mexer! 

Na Praça podemos encontrar tudo e levar para casa uma cesta cheia de estórias de vida. Desde pequena me delicio com estes espaços, primeiro acompanhando a minha mãe, mais tarde, já em Coimbra, a fazer as minhas compras.

Das cidades por onde andei nunca deixei de frequentar os seus mercados.

Mesmo numa visita de alguns dias a alguma cidade, aqui ou no estrangeiro, a praça ou a feira são passagem obrigatória. É que não encontramos, tal como no supermercado, sempre os mesmos produtos. A hortelã da ribeira, por exemplo, só se encontra em mercados do Alentejo, tal como o carapau seco, que só existe no litoral. E foi no mercado de Lugo que já há muitos anos comprei a mais genuína e saborosa empanada.

Aqui em Braga foi na Praça que conheci as variedades regionais de feijão moleiro, miúdo ou galego e amarelo, as couves tronchudas, as laranjas de Amares, as maçãs porta da loja e as de São Tiago, que também fizeram parte da minha infância, e aprendi a distinguir as couves saboias das lombardas.

E se os doces regionais só se veem nas romarias, é aqui que todas as semanas também o vamos encontrar. Tal como é na praça do peixe que encontramos o mar de Esposende, de Matosinhos, de Vila do Conde ou de Viana e, claro, também o da Galiza, aqui tão perto.

E tenho tantas histórias para contar…

A alegria e ingenuidade daquela peixeira que me garantia que a sardinha era de Matosinhos, quando no exterior da caixa estava escrito Terragona, ou aquelas outras que garantem que os legumes que vendem só receberam o sol e a água da chuva, jurando a pés juntos, que não lhes colocam químico algum, quando se percebe pelo olhar um crescimento rápido e desmesurado.

Mas também me lembro daquela velhota que vinha da zona de Terras de Bouro vender o feijão amarelo, como se fosse uma preciosidade, e que dizia, quando eu reclamava do preço – “Oh menina, olhe que isto dá muito trabalho!”.  E eu sabia que tinha razão e pagava o que ela me pedia! Ou aquelas, muitas, que fazem sempre o acerto para cima no peso e dizem no final – “Pronto, é para ficar cliente!”.

E ficamos clientes porque voltamos ao sorriso franco, ao peso bem pesado, à genuinidade sincera de quem cresce a partilhar com os outros e não se esmifra no peso certo. E encontramos produtos genuínos e de qualidade, produzidos por gente franca e sincera.

É verdade que nos últimos anos as praças foram ficando vazias, porque as gentes se deslumbraram com as grandes superfícies que lhes ofereciam um consumo desenfreado com produtos normalizados, novos, brilhantes e vindos do fim do mundo.

Tiveram que se reinventar, mas, ainda assim, não perderam a genuinidade que as caracteriza porque é aqui que encontramos o pulsar agrícola e alimentar de uma região.

Vamos então à praça? Vamos, à procura do melhor que a região tem para nos dar!

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